10 de novembro de 2017

Blockchain, IA e o futuro dos seguros

E se uníssemos tecnologia Blockchain e Inteligência Artificial e
repensássemos o atual modelo de produtos de seguro, engessados e massificados?

Fabricio Vargas Matos

Fabricio Vargas Matos

Co-founder e CTO da Mutual.Life

Tecnologias Blockchain e Distributed Ledgers estão sendo experimentadas por todo mundo e o mercado de seguros não está de fora. Recentemente, o grupo B3i formado por quinze seguradoras e resseguradoras globais anunciou o lançamento de um protótipo funcional que utiliza blockchain para "construir uma plataforma industrial eficiente em escala global para os participantes do mercado para ceder, controlar e negociar com mais facilidade os riscos". Com previsão para entrar em produção já em 2018, eles esperam alcançar 30% em redução de custos com a plataforma.

O uso de Blockchain para diminuir fricção e aumentar eficiência faz muito sentido, e muitos setores irão se beneficiar disso. Mas acredito que o potencial revolucionário do Blockchain só será realmente alcançado quando entendermos que essa tecnologia permite novos arranjos que não eram sequer possíveis de serem imaginados há alguns anos. É claro que uma coisa não exclui a outra, mas é preciso superarmos o dilema da inovação e pensarmos como os seguros do futuro poderiam ser, ao invés de buscarmos apenas traduzir os processos do atual modelo de seguros e resseguros para uma versão mais eficiente em Blockchain.

E se uníssemos tecnologia Blockchain e Inteligência Artificial e repensássemos o atual modelo de produtos de seguro, engessados e massificados? As duas principais questões que norteiam essa reflexão são: (i) Como diminuir a assimetria da informação para proporcionar uma experiência mais justa para todos os participantes em escala global? (ii) Como regular algoritmicamente a plataforma para garantir um altíssimo grau de confiança de solvência?

É claro que não há resposta simples para essas perguntas, mas um caminho é resgatarmos a essência do mutualismo, com pequenos grupos de confiança como base, porém, rodando sobre um protocolo neutro, totalmente descentralizado em blockchain, que permita um alto grau de diluição de riscos. O tipo de protocolo que temos em mente teria três pilares: o mutualismo desintermediado, a gestão de risco automatizada e o resseguro peer-to-peer.

Antes de tudo é importante destacar que a Mutual.Life não é uma seguradora, muito menos uma associação ou cooperativa de seguro mútuo. Somos apenas uma plataforma tecnológica cujo modelo de negócios é oferecer software como serviço, visando proporcionar diferentes níveis de compartilhamento de riscos entre seus usuários, tendo em sua base um tipo de self-insurance compartilhado. Isso é importante pois a empresa Mutual.Life não terá qualquer tipo de benefício ou economia quando indenizações forem negadas, tornando-se um protocolo neutro.

Para o primeiro pilar buscamos embasamento estatístico e econômico em estudos atuais como e sobre seguros informais em regiões de baixo IDH, e a partir desses e outros estudos, propusemos a formação de pequenos grupos de ajuda mútua como base da plataforma. Embora pequenos grupos de 30 a 50 pessoas não conseguirão diluir seus riscos de forma minimamente aceitável, se formados por pessoas de confiança como colegas de trabalho e familiares, tendo em vista o risco moral atrelado às relações de confiança entre os participantes, têm o potencial de diminuir consideravelmente a assimetria da informação, o que efetivamente temos observado em um experimento piloto que estamos conduzindo com um grupo de proteção de smartphones. Assim, embora sejam insuficientes sozinhos, os pequenos grupos de confiança são uma das peças mais importantes do nosso quebra-cabeças.

Em seguida, para conferir aos pequenos grupos de ajuda mútua uma boa diluição de riscos, precisamos lançar mão do segundo pilar introduzindo uma camada de gestão de risco automatizada ao protocolo descentralizado de self-insurance. Para isso, podemos utilizar Inteligência Artificial para produzir scores de risco individuais e de grupos, processando dados históricos na plataforma, bem como eventualmente agregando dados externos por meio de oráculos confiáveis autorizados consensualmente. Os scores de risco servirão de base para uma gestão de risco automatizada, orquestrada por smart contracts e robôs. Dessa forma, os grupos podem ser organizados em pools, e os robôs, sem qualquer conflito de interesses, poderão com eficiência máxima atuar promovendo simetria nas relações peer-to-peer e estabilidade sistêmica na rede. Desta forma este segundo pilar permitirá que eventos menores e frequentes sejam diluídos no tempo entre os vários grupos de um mesmo pool, proporcionando muito mais confiança de solvência. Acreditamos que esse arranjo de grupos de ajuda mútua somados aos pools inteligentes irão, por exemplo, superar a confiança de solvência das associações e cooperativas de mútuo, de forma desintermediada, transparente (auditável online), e com regras de governança e compliance garantidas via blockchain e smart contracts. E se imaginarmos esse protocolo operando em uma escala global, até mesmo riscos co-variantes como furacões e terremotos, por exemplo, que são bem mais raros, porém, com grande impacto econômico, poderiam ser diluídos de forma eficiente entre os pools regionais.

Até aqui estamos visualizando um protocolo de self-insurance compartilhado que visa promover simetria e solvência. Mas se quisermos repensar o futuro dos seguros de um forma geral, precisaremos ir além e considerar a importância do resseguro e dos investidores externos carregando riscos residuais da rede. Por isso acreditamos que a melhor solução para alcançarmos níveis excelentes de solvência é unirmos o melhor dos dois mundos (mutualismo e seguro) e permitirmos que os riscos dos pools possam ser negociados por meio do que podemos chamar de resseguro peer-to-peer. Utilizando assets digitais (criptomoedas) para tokenizar riscos, investidores externos poderão comprar os riscos residuais da rede que, eventualmente, não conseguirão ser cobertos pelos pools inteligentes. Esse mecanismo também seria implementado via smart contracts que gerenciarão o colateral depositado pelos investidores, os prêmios pagos pelos usuários/pools, as indenizações e, finalmente, o resultado da operação para os investidores. Emitindo tokens (criptomoedas) que representam o investimento nos pools os investidores poderão não só acompanhar online sua performance, mas também comercializá-los sem qualquer fricção nos mercados de criptomoedas, dando muito maior mobilidade e liquidez aos investimentos.

É claro que um projeto ambicioso como este é extremamente desafiador. Uma forma de pensar um roadmap viável é assumir a mentalidade experimentação e validação de uma startup e trabalhar a partir dos grupos de ajuda mútua, que não é e nem compete diretamente com produtos de seguro, mas pode agregar valor para mercados mal atendidos, e a partir do crescimento orgânico dos grupos prover níveis cada vez maiores de segurança, tendo o resseguro peer-to-peer como uma alternativa para dar a confiança necessária. Hoje, especialmente em países em desenvolvimento como o Brasil, uma grande parcela da população não tem acesso a produtos de seguro, não só pela falta de uma cultura de seguro, mas também pelo fato dos produtos atuais serem desenhados para perfis sócio-econômicos específicos, excluindo boa parte da população e limitando as linhas de negócio àquelas cujos dados históricos dão a segurança necessária ao sistema para um operação em larga escala. Por isso, partindo do mercado mal atendido, criando produtos que podem atender a diferentes perfis, do microsseguro ao consórcio de empresas, uma solução global pode emergir de forma gradativa, sem deixar nem o mercado nem o público consumidor vulneráveis.

A verdade é que ninguém sabe exatamente que tipo de modelo irá se consolidar a partir dessa revolução tecnológica. Contudo, acreditamos que da mesma forma que a Internet proporcionou a descentralização da produção de conteúdos e das comunicações, assim também deve acontecer com o compartilhamento de risco, que será descentralizado, assumindo uma forma mais orgânica e flexível. Seja como for, o novo modelo tende a ser mais eficiente, mais seguro e mais inclusivo que o atual modelo se seguros privados.

Artigo publicado em: Next Business Media


Fabricio Vargas Matos

Fabricio Vargas Matos

Co-founder e CTO da Mutual.Life

Fabricio Matos é mestre em ciências da computação (BSc, MSc) e especialista em Blockchain (Bitcoin e Ethereum), 15 anos coordenando projetos de software para o mercado corporativo e apps mobile, atuou como CTO em 3 startups.


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